Misoginia


Cristiane Luz

Misoginia não é apenas uma palavra difícil, dessas que parecem viver em dicionários. É prática, é estrutura, é sombra que atravessa séculos. Significa ódio às mulheres, mas não se limita ao ódio explícito: é também o desprezo disfarçado, a exclusão silenciosa, a desvalorização cotidiana.
O significado da misoginia está na piada que reduz, no assédio que ameaça, na violência que mata. Na rua, ela se disfarça de assobio, de olhar que mede, de medo que acompanha até a porta de casa. No lar, pode se esconder em frases como “isso não é coisa de mulher” ou “você não entende de política”.
Há um muro que não se vê, mas que se ergue todos os dias diante das mulheres. Não é feito de tijolos, mas de frases repetidas: “isso não é para você”, “não se meta”, “seja discreta”. É um muro que se constrói com piadas, com salários menores, com olhares que pesam mais que pedras.
A misoginia é esse muro invisível. Ele não precisa de guardas armados, porque já tem séculos de tradição. E, ainda assim, insiste em se renovar, como se fosse natural limitar, calar, reduzir.
Mas há quem bata contra esse muro com força. Há quem escreva, quem marche, quem ocupe espaços que antes eram interditados. Há quem transforme a dor em bandeira e a raiva em combustível.
A cada fissura aberta, o muro treme. A cada mulher que se recusa a aceitar o silêncio, o muro perde um tijolo. E não há cimento que resista à coragem coletiva.
A misoginia é persistente, mas não é invencível. Porque não há muro que aguente quando a multidão decide atravessar.
E é por isso que nomear a misoginia importa: porque só aquilo que é dito pode ser enfrentado. Não basta reconhecer o muro — é preciso derrubá-lo. Cada palavra, cada gesto, cada passo de coragem é uma marreta contra a estrutura que insiste em nos limitar.
O fim da misoginia não virá por concessão, mas por luta. E essa luta já começou, em cada mulher que se recusa a ser sombra e insiste em ser sol.

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Cristiane Luz

E-mail: crisluz1311@gmail.com

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