Cristiane Luz
Ainda há quem seja feito de algodão. Num mundo de aço — duro, apressado e sem perdão — ainda existem gestos suaves, cuidados gentis, olhares que tocam com alma e calor. São como pequenas cosquinhas no coração, lembrando que a delicadeza não desapareceu, apenas se escondeu entre os ruídos da pressa.
Corações de algodão merecem afagos firmes, carinhos sinceros, abraços demorados. Por isso, Rodrigo, com toda a ternura que só o algodão conhece, eu discordo da tua canção.
Ainda existem pessoas ternas por natureza — como a carícia de um algodão ao toque da pele. Gente de algodão que sorri com o olhar, que se emociona com gestos simples, que se importa sem esperar nada em troca. Quando Rodrigo Zin canta que elas não existem mais, talvez esteja apenas lamentando a saudade delas. Mas elas existem, sim. Raras como tudo que vale a pena.
Eu conheço uma delas: Ele insiste em me fazer admirá-lo todos os dias. Me desperta dos meus sonhos de algodão fazendo ir ao seu encontro com preguiça, mas com confiança. Ele me recebe com carinho, se preocupa comigo — não por utilidade, mas por humanidade. Me olha firme nos olhos, compartilha suas limitações sem medo. Me ajuda, cuida da minha saúde, ele me cura, me faz baixar a guarda.
E quando lê nos meus olhos as minhas batalhas do dia a dia, fica quietinho ao meu lado, me faz entender que tudo vai passar. Faz isso sem dizer uma palavra.
Talvez o mundo esteja mesmo cheio de plástico, de concreto, de cor cinza. Mas o algodão não desapareceu. Ele só ficou mais raro. E por isso, mais precioso.
Essa crônica, que discorda com elegância da canção do Rodrigo Zin, Algodão de Interlúdio, é um tributo às pessoas que ainda têm um coração de algodão — que se importam, que acolhem, que amam. Alguns são tão algodão que nem sabem que são.
Um lembrete de que, mesmo em tempos duros, a gentileza ainda floresce.
E ela tem gosto de algodão doce.
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