Cristiane Luz
“Deixe chover, deixe chover, à vontade... quem irá impedir a chuva de cair?” — estou indo pra casa, escutando Let It Rain, do maravilhoso Bon Jovi em parceria com Luciano Pavarotti.
Por um segundo, fecho os olhos e sigo no balanço do ônibus. Lembro-me...
Ele tem um sorriso que escorre como claridade sobre o mar — breve, cintilante, quase sagrado. Mas logo se fecha, como uma ostra que guarda seus tesouros no silêncio. Uma ostra difícil de acessar, envolta em mistério, que só revela sua pérola a quem sabe olhar com sensibilidade.
Será defesa? Talvez. Como quem se recolhe para proteger o que há de mais precioso. Nem toda luz brilha o tempo todo. Às vezes, ela se esconde, se recolhe — como quem precisa da sombra para continuar sendo luz.
“Quem irá impedir a chuva de cair?” — insiste o saudoso Bon Jovi.
Suspiro e continuo a divagar...
Ele olha manso, como uma garoa tímida. Fraca, talvez, mas intensa. A chuva não precisa ser tempestade para tocar. E mesmo sendo ostra, seu olhar revela firmeza, decisão — até um certo susto. Como as criaturas do mar que nos fascinam e nos assustam ao mesmo tempo.
De repente...
O rosto se fecha como o tempo se armando para a tempestade.
“Desde que existe trovão
Há abrigo para a tempestade
Um lugar para se proteger” — verseja o querido Bon Jovi.
Como um trovão, ele rompe o silêncio. Fecha a expressão fácil. Vira vulcão em erupção — impõe respeito. Mas não precisava explodir. Bastava pedir.
“Antes da primeira gota atingir o chão, quem irá impedir a chuva de cair?” - canto em voz baixa.
O fascínio assusta. Faz a gente se recolher. Agora entendo a ostra. Ela esconde a pérola por medo. Medo de que roubem sua beleza, sua essência, o instante mágico. Dá pra paralisar o tempo? Dá pra congelar o êxtase? Não sei.
Só sei que, enquanto ouço Bon Jovi, vou juntando os momentos.
Olhares, palavras, sorrisos.
Todos guardados no meu pensamento.
“Let it rain, let it rain...”
A melodia acaba — talvez por destino, talvez por coincidência — no meu ponto de desembarque. Desço do ônibus. Ainda chove fraquinho...
E talvez seja isso: algumas chuvas não vêm pra molhar, mas pra lembrar. Que há beleza no recolhimento. E que até o silêncio guarda luz.
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